Tuesday, 2 December 2008

A Rua é de Todos-Capítulo 2

Os perfis dos moradores de rua

Os moradores de rua apesar de viverem cercados de gente, não se comunicam com quase ninguém. De vez em quando conversam com algumas pessoas, mas são apenas algumas palavras mendigando um cigarro, uns trocados ou um prato de comida. Não existe relação de vínculo familiar ou social, eles quase nunca vão à igreja, não estudam, não trabalham, e dificilmente compram ou adquirem alguma coisa.

A maioria deles possui doenças infecto contagiosas, alguns nunca fizeram uma consulta médica, e outros tampouco fazem questão de se prevenir. Quem pensa que o morador de rua não tem relação sexual, está enganado. Os homens estão em maior número que as mulheres nas ruas, por isso encontrar uma parceira é quase um milagre. Isso faz eles manterem relações com os próprios colegas de rua, tudo sem higiene ou prevenção alguma.

Quando são recolhidos pelos programas de assistência social, muitos se encontram com DST, tuberculose, hepatite entre outras doenças. Os programas ajudam a fazer uma desintoxicação, mas é preciso realizar uma bateria de exames. Leva algum tempo e muitos entram em crise, tornando o quadro de recuperação mais complicado para os coordenadores. Depois de curados e amenizados alguns problemas físicos, são enviados para comunidades terapêuticas, que também são de uso público, e ajudam na recuperação deles.

As comunidades auxiliam também a população em geral. Pais que tem seus filhos envolvidos com drogas, sem condições de pagar um tratamento para solucionar esse problema, podem usufruir deste recurso. Basta ir até o prédio da assistência social do município e pedir um encaminhamento para uma das unidades terapêuticas. Mas a resistência das famílias ainda é grande. Muitos preferem não mandar seus filhos devido ao estado degradante dos drogados e dos moradores de rua que elas abrigam.

Moradores de Rua em Florianópolis

Dentre tantas cidades que ainda sofrem com a falta de moradias, atendimentos médicos e com o acúmulo de moradores de rua, Florianópolis não fica para trás. A capital catarinense está entre as dez cidades brasileiras com os maiores índices de desabrigados. Só no primeiro semestre de 2008, mais de 500 moradores de rua foram abordados nas calçadas pontes e marquises pelo projeto Abordagem de Rua. Um número bem elevado para uma cidade com pouco mais 400 mil habitantes. Irma Remor, Coordenadora do projeto, conta que há dificuldade nos meios públicos para prestar auxílio a essas pessoas.

A intenção do Abordagem de Rua é tratar os recolhidos fornecendo banho, corte de cabelo, assistência médica e documentação, já que muitos foram assaltados ou perderam seus pertences. Além disso, fazer um tratamento para que eles possam se recuperar dos vícios, já que 80% dos que estão nas ruas são dependentes químicos, principalmente do álcool. Geralmente eles têm idade entre 32 e 50 anos.

A assistência só é dada àqueles que aceitarem se tratar numa das clínicas de reabilitação conveniadas a Secretaria de Assistência Social, o que eles chamam de comunidades terapêuticas. Mas a dificuldade em conseguir exames e atendimentos médicos acaba fazendo com que o processo seja mais demorado.

Em janeiro de 2007, Neuza Maria Goedert coordenadora do Centro de Apoio Psicossocial Álcool e Droga, (CAPS-AD), disse que os hospitais públicos estavam negando-se a fazer atendimentos a essas pessoas, colocando a vida de alguns em risco. Segundo ela, os hospitais não estavam querendo internar as pessoas que necessitavam de atendimento médico urgente. Alguns estavam com tuberculose avançada, outros com síndrome de abstinência do álcool e poderiam até morrer. A situação do paciente é um processo complicado, ele é retirado das ruas e tem que se livrar dos vícios do álcool e das drogas. Quase todos passam por sessões com psicólogos, a abstinência das drogas faz com que a maioria sofra com distúrbios mentais e emocionais.

Depois de algum tempo nas clínicas de reabilitação, alguns são encaminhados para outros programas de apoio ao morador de rua. Os programas de assistência social auxiliam os mendigos a tirar seus documentos gratuitamente, receber passagem de volta a sua terra de origem e desenvolver atividades que os ajudam a inserir-se no mercado de trabalho. Mas nem tudo isso faz com que eles permaneçam muito tempo.

O índice de recaída, segundo Neuza é de 50%. Ela revela que muitos não estão mais acostumados a seguir horários e regras, que gostam de viver livres pelas ruas, o que torna a rotina insuportável para eles. Não há nenhuma lei que os obriguem a saírem das ruas, diferente do que acontece com as crianças que são amparadas pelo Estatuto da Criança e Adolescente (ECA).

Confira Amanhã o próximo capítulo de A Rua é de Todos: Programas que atendem os moradores de rua

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