Thursday, 4 December 2008

A Rua é de Todos-Capítulo 5

A estrutura da Casa de Apoio ao morador de Rua

As dependências da principal casa que abriga os moradores de rua na cidade de Florianópolis são simples. Quatro quartos com trinta camas. Parece muita cama, mas o espaço é amplo sem dar a sensação de superlotação. Cinco banheiros que evitam as filas na hora do banho, sendo que cada indivíduo tem dez minutos para fazer sua higiene. A limpeza dos cômodos é distribuída entre aqueles que possuem disposição para fazer o serviço. As medicações fornecidas pela casa vêm da prefeitura, não contam com outro tipo de apoio ou doação. Segundo Melissa Casagrande, coordenadora social, grande parte dos desabrigados chegam a casa sem algum tipo de documento. E uma das prioridades da coordenadoria é correr atrás de meios para que possam identificar o morador de rua.

“Se é uma pessoa que veio para trabalhar e acabou sendo roubada, a gente retira novamente a carteira de trabalho. Para fazer a identidade o balcão da cidadania faz, e tem um serviço social fornecido pela igreja católica, na catedral, que fornece as fotografias”.

A partir do primeiro documento á prioridade é a saúde. Com uma certidão de nascimento já se consegue fazer um cartão do SUS, para que o abrigado possa ser atendido. A maioria deles tem dificuldade de fazer uma consulta por não ter endereço fixo ou um documento que comprovem sua residência. Alguns abrigados confessam ter procurado auxílio médico para tratar tuberculose e hepatite, mas não tinham seus pedidos encaminhados pelos postos de saúde, por não conseguirem comprovar onde moravam.

Dentro da Casa de Apoio os moradores de rua vão sendo encaminhados para fazer os tratamentos, não há limite de dias para ficar abrigado na casa, o que facilita quando alguém precisa de um tempo maior.Além de cuidar da saúde e da documentação, a Casa funciona como um meio de ressocialização. Assim que recebe alta dos programas de desintoxicação, são encaminhados para a uma unidade terapêutica em uma fazenda, onde permanecem por nove meses, para evitar recaídas ou possíveis transtornos psicológicos.

Assim que sai da fazenda a Casa de Apoio se propõe encaminhar a documentação que ainda lhes faltam, além de cadastrá-los no (Sistema Nacional de Emprego), SINE, onde eles podem encontrar um emprego. Em alguns casos a Casa aceita que o morador de rua fique em suas dependências, até que possa se estabilizar e pagar o aluguel de um quarto para morar.

Responsabilidade Social

Muitos chegam com esse sonho. Reiniciar sua vida social, arrumar um emprego e conseguir viver sem depender de outros. Em poucos dias de tratamento, muitos dos acolhidos já pedem para serem encaminhados ao SINE, mas a coordenadoria da Casa só permite que o abrigado seja encaminhado depois de fazer todo o processo de tratamento.

“A gente tenta explicar á eles que em vinte dias de tratamento, não dá para ficar pronto para o mercado de trabalho, o índice de recaída e muito grande” explica Neuza Goedert, coordenadora da Casa.
O programa realizado pela Casa é de extrema importância para o município de Florianópolis, e a inclusão no programa desejada por muitos que estão nas ruas. É a prefeitura quem mantém todos os custos gerados. Por dia são servidas mais de 140 refeições.

Caminhando animado pelos corredores da Casa, Jorge já está há três anos abrigado , o encontraram fugindo de casa no bairro Ponta do Coral. Tem comportamentos normais, mas ele sofre com crises possessivas e transtornos mentais. Jorge conta que é bem tratado na casa, diz que gosta muito das refeições, e com a voz trêmula, se arrisca a lembrar o que foi servido no dia anterior. “De manhã serviram café, pão, doce e manteiga. Ao meio dia vieram marmitas com macarrão, arroz, feijão, frango á milanesa e lasanha, e daqui a pouco já vai ter o lanche”.

Ao meio dia a casa recebe marmitas de uma empresa terceirizada, é evitado usar demasiadamente a cozinha pelos riscos de contaminação, e pelo custo que gera mais funcionários trabalhando no abrigo, já que as verbas são muito altas. A noite vem uma cozinheira que faz a janta, Maria. Ela conta que na última noite fez uma janta que todos gostaram, todos admiram a habilidade suas mãos.“Na última noite fiz um banquete. Teve arroz, feijão, frango ensopado, repolho e abóbora. Tudo bem temperadinho com alho e cebola” conta. “Foi um daqueles de lamber os beiços.”
Os abrigados não podem ajudar a fazer as refeições, nem entrar na cozinha, devido ás normas de higiene da Casa. Às vezes alguns selecionados pelos monitores, ajudam na limpeza e na lavagem das louças sujas, mas não há discriminação desses, com os que possuem algum tipo de doença.

Casos de agressão ou brigas são raros. O ambiente é tranqüilo. A Casa possui pessoas que tem 22 anos e se estende até os 55. Mas nem essas diferenças fazem com que a tranqüilidade da casa se acabe. O abrigado mais novo da casa se identifica como Roberto, têm 18 anos, é do interior do estado de Santa Catarina, assim como muitos que já estiveram por ali. No local já passou gente de toda a parte do Brasil, mas segundo a coordenação a maioria vem do interior do estado de São Paulo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina além, da região nordeste do país.

Enfrentando a discriminação sexual

A Casa de Apoio não faz discriminação sexual. Trata todos igualmente, aceita a opção sexual dos abrigados, mas proíbe qualquer tipo de vestimenta que identifique, ou qualquer espécie de relação dentro do ambiente.“Já tive um caso aqui na casa, mas era tudo sigiloso, ninguém sabia quem ele era. A falta de relacionamentos normais entre os moradores de rua acaba gerando uma grande confusão na cabeça deles” afirma Melissa Casagrande, coordenadora geral da casa. “Geralmente o caso homossexual acontece com apenas uma das partes, então fica mais difícil de ter algum tipo de relacionamento aqui dentro”.

Os banheiros da casa não podem ser trancados, os monitores entram durante o período do banho, e não é permitido que todos entrem juntos.È feito uma fila, e o próximo espera do lado de fora aguardando sua vez, justamente para evitar o contato ou possível relação. Quando acontece de alguém quebrar alguma regra da Casa, é cortado do programa e mandado embora. Como muitos dos municípios não podem abrigar o atendido a voltar para sua terra de origem, ou para a casa de familiares, ele acaba retornando as ruas. Ao todo são oito monitores que se revezam em um período de 24 horas, em duplas ou trios. Além dos monitores, a Casa conta com uma equipe de apoio que inclui um auxiliar de serviços gerais, um motorista, uma auxiliar administrativa, uma cozinheira, uma coordenadora assistente e uma assistente social.

Saindo da Rotina

A Casa não desempenha muitas atividades físicas, e dá exclusividade para o descanso dos abrigados, para que eles se recuperem rapidamente. Todas as segundas, terças e quintas na parte da manhã eles participam dos programas de reabilitação no CAPS. Na parte da tarde, o tempo é usado para fazer tratamentos médicos, encaminhar documentos e para os grupos de recaída. Nas sextas-feiras o programa é o durante todo o dia.

Muitos depois de tratarem, conseguem vencer o vício. Mas quando se tornam independentes, começam a ganhar o próprio dinheiro, acabam recaindo nas drogas e no álcool. Por isso não é permitida a saída da Casa nem nos finais de semana, para excluir qualquer tipo de contato com o que eles já viveram lá fora. Para não ficarem monótonos os finais de semana, aqueles que se encontram em melhores condições físicas participam de exercícios na beira da praia, ajudam na limpeza da orla e praticam atividades sociais acompanhados pelos monitores.

A permanência na casa sempre foi voluntária, ninguém é obrigado a se tratar ou ficar ali. Quando alguém quer interromper o tratamento ou se desligar da Casa, é só procurar a coordenadora, que refaz uma avaliação dos motivos que estão o levando a desistir. Caso o abrigado decida mesmo ir embora, é feito o desligamento e geralmente volta para as ruas, apesar, de a secretaria de assistência social o incentivar a voltar para sua cidade de origem. Poucos se acostumam com a rotina do programa, já quê na rua não há relógio, nem regras. Ás seis e meia da manhã todos são acordados, os chuveiros são ligados, e todos têm de fazer sua higiene pessoal. Ás sete e meia o café já os espera nas grandes mesas do refeitório.

A influência das drogas

O principal motivo de desistência do programa é devido às drogas. Os programas de reabilitação deixam à pessoa em abstinência total. O usuário já vem para o abrigo desequilibrado psicologicamente. Agora a falta da droga, faz os problemas ficarem ainda mais agravados. Um usuário de crack fugiu da casa sem comunicar ninguém. Antes de entrar no abrigo catava latinhas de alumínio pelas ruas. Gastava tudo o que ganhava comprando droga. Antes de pular um muro de quase dois metros, ele ainda conversou com a coordenadora no pátio da casa.

“A senhora não acredita ó, colocaram uma latinha em cima do muro para eu ir embora. Tô na fissura mesmo. Isso é um sinal de Deus, dona” replicava.
Os usuários de crack são os que mais precisam de atenção e assistência no programa da Casa. Segundo o departamento de psicologia do IPQ, o crack é a droga que mais afeta o sistema psicológico dos usuários. Mas pode ser controlado através de tratamentos e consultas psiquiátricas.

Dificuldade de reintegração

Em um ano e meio, mais de 700 moradores de rua e desabrigados estiveram hospedados na Casa de Apoio. Menos de 30% dos que passaram por ali conseguiram reverter à situação de rua ou sua dependência química. Muitos não entendem que um tratamento de desintoxicação custa caro ao governo, e o PROADQ fornece esse tipo de serviço sem cobrar nada. Jailson que leva e trás os abrigados para os programas de reabilitação diz que o país necessita de mais programas que se preocupem com a vida social de outras pessoas, e afirma que Florianópolis é um município privilegiado, sendo um dos poucos onde há tratamento gratuito.

“Temos um privilégio de ter um programa desses aqui. Pois vários municípios não têm essa estrutura que nós temos. Isso é um complemento que tem nos ajudado muito na luta contra as desigualdades sociais”. Além de enviar os seus abrigados para os tratamentos de desintoxicação, a Casa têm como filosofia, tratar igualmente todos, fornecendo o que há de melhor para empolgá-los a mudarem de vida.

No último dia de entrevistas pela Casa, Maria, cozinheira, e Luciana, auxiliar, preparam um grande bolo. Vai acontecer uma pequena festinha com bolo e refrigerante para alegrar o pessoal. O ambiente estava super limpo, e alguns monitores preparavam um kit para distribuir entre os abrigados. Estavam guardados em um quarto exclusivo, que é usado para atender mulheres em casos de extrema necessidade, ou quando há alguém com a suspeita de homossexualismo, para não ser agredido ou discriminado por outros. O clima era de festa entre os organizadores que esperavam a chegada dos abrigados que vinham do programa de desintoxicação

Organizando o ambiente

Jailson, o motorista, me leva entre um corredor que liga a cozinha e a rua. Há um compartimento exclusivo para guardar as malas, que não podem ficar no quarto. Todas elas seladas e nomeadas com fitas adesivas, carregando o nome de seu dono, Pedro, Josimar, Romilson. Antigamente as malas ficavam nos quartos, mas acontecia muito furto. Quando um abrigado ia embora, acabava levando os pertences do outro. Então foi adaptada essa sala para guardar todas as coisas, onde ficam na supervisão da equipe. No final do corredor uma máquina de lavar roupas, onde os próprios moradores podem lavar suas peças. O sabão em pó é medido por um monitor, para que não tenha desperdício, e todos são ensinados a usarem os botões super modernos da máquina. A equipe da Casa só lava os lençóis e as toalhas, que precisa de um produto especial para evitar a contaminação de piolhos, sarnas e outros.

Jailson prossegue comigo no corredor que dá para um pátio coberto do abrigo, ele conta que foi improvisado um varal para estender as roupas recém lavadas.
“Era engraçado, toda vez que chovia demais, os abrigados ficavam sem roupas e tinham que ficar dormindo, já que eles tem poucas peças, então a gente fez esse varal dentro de casa”.

A sede da Casa é uma construção mais antiga e foi alugada e reformada para usar como apoio aos moradores de rua. Alguns ainda estão na cama descansando, pois acabaram de chegar e não tem forças para participar dos tratamentos de reabilitação.
Os abrigados que já se encontram num nível de controle maior, e que já estão trabalhando ganham quartos mais equipados e podem ter seu próprio guarda roupas além, de poder usar o banheiro dos quartos.

Lazer e diversão

Na sala de TV seu Joaquim assiste a um filme. Um homem com chapéu de palha estilo agricultor, calça jeans, barra dobrada até a canela, camisa xadrez, embrulhando um cigarro de corda. Aparenta mais de 70 anos, não tem família. É um dos moradores mais idosos da Casa. Ele está ali à espera dos outros colegas. Eles participam do programa de reabilitação. Ansioso, Joaquim prepara as cartas de baralho para jogar assim que todos chegarem. Na rua o puxadinho de telhas que forma a varanda onde foi improvisado o varal, fica á beira da piscina que necessita de limpeza e manutenção. Mesas e cadeiras improvisadas formam as rodas de jogos. Ali é a área social onde todos se reúnem para conversar, fumar e descontrair. Baralho, dominó, dama, palito fazem a festa dos abrigados quando estão reunidos na Casa. Alguns jornais atrasados e revistas com notícias ultrapassadas distraem a atenção deles entre um jogo e outro.

No cantinho da varanda alguns colocam em prática a criatividade. Criam cestos, animais, objetos feitos de canudos de jornal. Depois passam um pouco de verniz e lindas obras de arte saem de mãos que já esmolaram muito nas ruas. As idéias de alguns surpreendem. Latas de alumínio que não daríamos utilidade alguma, se transformam em objetos de enfeite, arames velhos molduram canetas, e garrafas plásticas viram barcos de brinquedo, uma verdadeira escola de arte.

Os artesanatos são vendidos quando eles vão fazer seus tratamentos. Os alvos de compra são pessoas que levam parentes, filhos ou conhecidos até a clínica. Os preços variam de R$2,00 a R$ 10,00, mas sempre tem uma pechincha.
A Casa de Apoio não proíbe o consumo do cigarro, que eles compram com o dinheiro arrecadado pelos artesanatos, além de guloseimas que os ajudam a distrair das drogas.

A estrutura da Casa de Apoio ao morador de Rua

As dependências da principal casa que abriga os moradores de rua na cidade de Florianópolis são simples. Quatro quartos com trinta camas. Parece muita cama, mas o espaço é amplo sem dar a sensação de superlotação. Cinco banheiros que evitam as filas na hora do banho, sendo que cada indivíduo tem dez minutos para fazer sua higiene. A limpeza dos cômodos é distribuída entre aqueles que possuem disposição para fazer o serviço. As medicações fornecidas pela casa vêm da prefeitura, não contam com outro tipo de apoio ou doação. Segundo Melissa Casagrande, coordenadora social, grande parte dos desabrigados chegam a casa sem algum tipo de documento. E uma das prioridades da coordenadoria é correr atrás de meios para que possam identificar o morador de rua.

“Se é uma pessoa que veio para trabalhar e acabou sendo roubada, a gente retira novamente a carteira de trabalho. Para fazer a identidade o balcão da cidadania faz, e tem um serviço social fornecido pela igreja católica, na catedral, que fornece as fotografias”.A partir do primeiro documento á prioridade é a saúde. Com uma certidão de nascimento já se consegue fazer um cartão do SUS, para que o abrigado possa ser atendido. A maioria deles tem dificuldade de fazer uma consulta por não ter endereço fixo ou um documento que comprovem sua residência. Alguns abrigados confessam ter procurado auxílio médico para tratar tuberculose e hepatite, mas não tinham seus pedidos encaminhados pelos postos de saúde, por não conseguirem comprovar onde moravam.

Dentro da Casa de Apoio os moradores de rua vão sendo encaminhados para fazer os tratamentos, não há limite de dias para ficar abrigado na casa, o que facilita quando alguém precisa de um tempo maior.Além de cuidar da saúde e da documentação, a Casa funciona como um meio de ressocialização. Assim que recebe alta dos programas de desintoxicação, são encaminhados para a uma unidade terapêutica em uma fazenda, onde permanecem por nove meses, para evitar recaídas ou possíveis transtornos psicológicos.

Assim que sai da fazenda a Casa de Apoio se propõe encaminhar a documentação que ainda lhes faltam, além de cadastrá-los no (Sistema Nacional de Emprego), SINE, onde eles podem encontrar um emprego. Em alguns casos a Casa aceita que o morador de rua fique em suas dependências, até que possa se estabilizar e pagar o aluguel de um quarto para morar.

Responsabilidade Social

Muitos chegam com esse sonho. Reiniciar sua vida social, arrumar um emprego e conseguir viver sem depender de outros. Em poucos dias de tratamento, muitos dos acolhidos já pedem para serem encaminhados ao SINE, mas a coordenadoria da Casa só permite que o abrigado seja encaminhado depois de fazer todo o processo de tratamento.

“A gente tenta explicar á eles que em vinte dias de tratamento, não dá para ficar pronto para o mercado de trabalho, o índice de recaída e muito grande” explica Neuza Goedert, coordenadora da Casa.O programa realizado pela Casa é de extrema importância para o município de Florianópolis, e a inclusão no programa desejada por muitos que estão nas ruas. É a prefeitura quem mantém todos os custos gerados. Por dia são servidas mais de 140 refeições.

Caminhando animado pelos corredores da Casa, Jorge já está há três anos abrigado , o encontraram fugindo de casa no bairro Ponta do Coral. Tem comportamentos normais, mas ele sofre com crises possessivas e transtornos mentais. Jorge conta que é bem tratado na casa, diz que gosta muito das refeições, e com a voz trêmula, se arrisca a lembrar o que foi servido no dia anterior. “De manhã serviram café, pão, doce e manteiga. Ao meio dia vieram marmitas com macarrão, arroz, feijão, frango á milanesa e lasanha, e daqui a pouco já vai ter o lanche”.

Ao meio dia a casa recebe marmitas de uma empresa terceirizada, é evitado usar demasiadamente a cozinha pelos riscos de contaminação, e pelo custo que gera mais funcionários trabalhando no abrigo, já que as verbas são muito altas. A noite vem uma cozinheira que faz a janta, Maria. Ela conta que na última noite fez uma janta que todos gostaram, todos admiram a habilidade suas mãos. “Na última noite fiz um banquete. Teve arroz, feijão, frango ensopado, repolho e abóbora. Tudo bem temperadinho com alho e cebola” conta. “Foi um daqueles de lamber os beiços.

”Os abrigados não podem ajudar a fazer as refeições, nem entrar na cozinha, devido ás normas de higiene da Casa. Às vezes alguns selecionados pelos monitores, ajudam na limpeza e na lavagem das louças sujas, mas não há discriminação desses, com os que possuem algum tipo de doença.Casos de agressão ou brigas são raros. O ambiente é tranqüilo. A Casa possui pessoas que tem 22 anos e se estende até os 55.

Mas nem essas diferenças fazem com que a tranqüilidade da casa se acabe. O abrigado mais novo da casa se identifica como Roberto, têm 18 anos, é do interior do estado de Santa Catarina, assim como muitos que já estiveram por ali. No local já passou gente de toda a parte do Brasil, mas segundo a coordenação a maioria vem do interior do estado de São Paulo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina além, da região nordeste do país.

Enfrentando a discriminação sexual

A Casa de Apoio não faz discriminação sexual. Trata todos igualmente, aceita a opção sexual dos abrigados, mas proíbe qualquer tipo de vestimenta que dentifique, ou qualquer espécie de relação dentro do ambiente. “Já tive um caso aqui na casa, mas era tudo sigiloso, ninguém sabia quem ele era. A falta de relacionamentos normais entre os moradores de rua acaba gerando uma grande confusão na cabeça deles” afirma Melissa Casagrande, coordenadora geral da casa. “Geralmente o caso homossexual acontece com apenas uma das partes, então fica mais difícil de ter algum tipo de relacionamento aqui dentro”.

Os banheiros da casa não podem ser trancados, os monitores entram durante o período do banho, e não é permitido que todos entrem juntos. È feito uma fila, e o próximo espera do lado de fora aguardando sua vez, justamente para evitar o contato ou possível relação. Quando acontece de alguém quebrar alguma regra da Casa, é cortado do programa e mandado embora. Como muitos dos municípios não podem abrigar o atendido a voltar para sua terra de origem, ou para a casa de familiares, ele acaba retornando as ruas. Ao todo são oito monitores que se revezam em um período de 24 horas, em duplas ou trios. Além dos monitores, a Casa conta com uma equipe de apoio que inclui um auxiliar de serviços gerais, um motorista, uma auxiliar administrativa, uma cozinheira, uma coordenadora assistente e uma assistente social.

Saindo da Rotina

A Casa não desempenha muitas atividades físicas, e dá exclusividade para o descanso dos abrigados, para que eles se recuperem rapidamente. Todas as segundas, terças e quintas na parte da manhã eles participam dos programas de reabilitação no CAPS. Na parte da tarde, o tempo é usado para fazer tratamentos médicos, encaminhar documentos e para os grupos de recaída. Nas sextas-feiras o programa é o durante todo o dia. Muitos depois de tratarem, conseguem vencer o vício.

Mas quando se tornam independentes, começam a ganhar o próprio dinheiro, acabam recaindo nas drogas e no álcool. Por isso não é permitida a saída da Casa nem nos finais de semana, para excluir qualquer tipo de contato com o que eles já viveram lá fora. Para não ficarem monótonos os finais de semana, aqueles que se encontram em melhores condições físicas participam de exercícios na beira da praia, ajudam na limpeza da orla e praticam atividades sociais acompanhados pelos monitores.

A permanência na casa sempre foi voluntária, ninguém é obrigado a se tratar ou ficar ali. Quando alguém quer interromper o tratamento ou se desligar da Casa, é só procurar a coordenadora, que refaz uma avaliação dos motivos que estão o levando a desistir. Caso o abrigado decida mesmo ir embora, é feito o desligamento e geralmente volta para as ruas, apesar, de a secretaria de assistência social o incentivar a voltar para sua cidade de origem. Poucos se acostumam com a rotina do programa, já quê na rua não há relógio, nem regras. Ás seis e meia da manhã todos são acordados, os chuveiros são ligados, e todos têm de fazer sua higiene pessoal. Ás sete e meia o café já os espera nas grandes mesas do refeitório.

A influência das drogas

O principal motivo de desistência do programa é devido às drogas. Os programas de reabilitação deixam à pessoa em abstinência total. O usuário já vem para o abrigo desequilibrado psicologicamente. Agora a falta da droga, faz os problemas ficarem ainda mais agravados. Um usuário de crack fugiu da casa sem comunicar ninguém. Antes de entrar no abrigo catava latinhas de alumínio pelas ruas. Gastava tudo o que ganhava comprando droga. Antes de pular um muro de quase dois metros, ele ainda conversou com a coordenadora no pátio da casa.

“A senhora não acredita ó, colocaram uma latinha em cima do muro para eu ir embora. Tô na fissura mesmo. Isso é um sinal de Deus, dona” replicava.
Os usuários de crack são os que mais precisam de atenção e assistência no programa da Casa. Segundo o departamento de psicologia do IPQ, o crack é a droga que mais afeta o sistema psicológico dos usuários. Mas pode ser controlado através de tratamentos e consultas psiquiátricas.

Dificuldade de reintegração

Em um ano e meio, mais de 700 moradores de rua e desabrigados estiveram hospedados na Casa de Apoio. Menos de 30% dos que passaram por ali conseguiram reverter à situação de rua ou sua dependência química. Muitos não entendem que um tratamento de desintoxicação custa caro ao governo, e o PROADQ fornece esse tipo de serviço sem cobrar nada. Jailson que leva e trás os abrigados para os programas de reabilitação diz que o país necessita de mais programas que se preocupem com a vida social de outras pessoas, e afirma que Florianópolis é um município privilegiado, sendo um dos poucos onde há tratamento gratuito.

“Temos um privilégio de ter um programa desses aqui. Pois vários municípios não têm essa estrutura que nós temos. Isso é um complemento que tem nos ajudado muito na luta contra as desigualdades sociais”. Além de enviar os seus abrigados para os tratamentos de desintoxicação, a Casa têm como filosofia, tratar igualmente todos, fornecendo o que há de melhor para empolgá-los a mudarem de vida.

No último dia de entrevistas pela Casa, Maria, cozinheira, e Luciana, auxiliar, preparam um grande bolo. Vai acontecer uma pequena festinha com bolo e refrigerante para alegrar o pessoal. O ambiente estava super limpo, e alguns monitores preparavam um kit para distribuir entre os abrigados. Estavam guardados em um quarto exclusivo, que é usado para atender mulheres em casos de extrema necessidade, ou quando há alguém com a suspeita de homossexualismo, para não ser agredido ou discriminado por outros. O clima era de festa entre os organizadores que esperavam a chegada dos abrigados que vinham do programa de desintoxicação

Organizando o ambiente

Jailson, o motorista, me leva entre um corredor que liga a cozinha e a rua. Há um compartimento exclusivo para guardar as malas, que não podem ficar no quarto. Todas elas seladas e nomeadas com fitas adesivas, carregando o nome de seu dono, Pedro, Josimar, Romilson. Antigamente as malas ficavam nos quartos, mas acontecia muito furto. Quando um abrigado ia embora, acabava levando os pertences do outro. Então foi adaptada essa sala para guardar todas as coisas, onde ficam na supervisão da equipe. No final do corredor uma máquina de lavar roupas, onde os próprios moradores podem lavar suas peças. O sabão em pó é medido por um monitor, para que não tenha desperdício, e todos são ensinados a usarem os botões super modernos da máquina. A equipe da Casa só lava os lençóis e as toalhas, que precisa de um produto especial para evitar a contaminação de piolhos, sarnas e outros.

Jailson prossegue comigo no corredor que dá para um pátio coberto do abrigo, ele conta que foi improvisado um varal para estender as roupas recém lavadas.
“Era engraçado, toda vez que chovia demais, os abrigados ficavam sem roupas e tinham que ficar dormindo, já que eles tem poucas peças, então a gente fez esse varal dentro de casa”.A sede da Casa é uma construção mais antiga e foi alugada e reformada para usar como apoio aos moradores de rua. Alguns ainda estão na cama descansando, pois acabaram de chegar e não tem forças para participar dos tratamentos de reabilitação.

Os abrigados que já se encontram num nível de controle maior, e que já estão trabalhando ganham quartos mais equipados e podem ter seu próprio guarda roupas além, de poder usar o banheiro dos quartos.

Lazer e diversão

Na sala de TV seu Joaquim assiste a um filme. Um homem com chapéu de palha estilo agricultor, calça jeans, barra dobrada até a canela, camisa xadrez, embrulhando um cigarro de corda. Aparenta mais de 70 anos, não tem família. É um dos moradores mais idosos da Casa. Ele está ali à espera dos outros colegas. Eles participam do programa de reabilitação. Ansioso, Joaquim prepara as cartas de baralho para jogar assim que todos chegarem. Na rua o puxadinho de telhas que forma a varanda onde foi improvisado o varal, fica á beira da piscina que necessita de limpeza e manutenção.

Mesas e cadeiras improvisadas formam as rodas de jogos. Ali é a área social onde todos se reúnem para conversar, fumar e descontrair. Baralho, dominó, dama, palito fazem a festa dos abrigados quando estão reunidos na Casa. Alguns jornais atrasados e revistas com notícias ultrapassadas distraem a atenção deles entre um jogo e outro. No cantinho da varanda alguns colocam em prática a criatividade.
Criam cestos, animais, objetos feitos de canudos de jornal. Depois passam um pouco de verniz e lindas obras de arte saem de mãos que já esmolaram muito nas ruas. As idéias de alguns surpreendem. Latas de alumínio que não daríamos utilidade alguma, se transformam em objetos de enfeite, arames velhos molduram canetas, e garrafas plásticas viram barcos de brinquedo, uma verdadeira escola de arte.

Os artesanatos são vendidos quando eles vão fazer seus tratamentos. Os alvos de compra são pessoas que levam parentes, filhos ou conhecidos até a clínica. Os preços variam de R$2,00 a R$ 10,00, mas sempre tem uma pechincha.A Casa de Apoio não proíbe o consumo do cigarro, que eles compram com o dinheiro arrecadado pelos artesanatos, além de guloseimas que os ajudam a distrair das drogas.

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